Os sensíveis sofrem mais, mas amam mais e sonham mais.



quinta-feira, 20 de abril de 2017

recanto do guerreiro

Ah, doce folga.
Não fazer nada é a ordem.
O recanto do guerreiro será frequentado,
com churrasco e cerveja...


Não quero saber de farmácia,
afinal, estou de folga dos remédios...
Mercado? Hm, a dispensa dá conta
dos próximos dias...
A louça? Depois eu lavo...
Não saio de casa nem pra levar o lixo...
Cãozinho, meu querido,
que parte voce não entendeu do "não vou sair de casa"?
Pode fazer xixi pelos cantos
rasgar o chinelo que eu não ligo.
Tô de folga!

Minha amada esposa,
cancela a consulta
e vai de Uber pro salão.
Não, mãe, não vou almoçar aí,
Estou no canto do guerreiro
aqui em casa...
nossa! como é gostoso ficar aqui
Olhando pro nada!
Ninguém mexe na TV.
Vou ver a champions league!
Depois, video game...
Ok, o cesto de roupa suja tá um pouco cheio,
Mas vai ficar assim!
Tô de folga, a máquina de lavar também!

"Amooorrrr, acordaaa!!!!"
"Hã??"
"Levanta desse sofá e abre o portão, que mamãe chegou!"

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Com V ou com W?

Enquanto eu era atendido em uma loja por aqui, me lembrei de quando fui atendido em Minas:

-Qual seu nome?
-Wagner
-Bom dia, o senhor me diga seu nome, faz favor?
-Com "W" ou normal?
-Com "W", não seria também normal?
-Wagner é com "W"ou com "V"?
-Não, aqui normal é com "V".
-Ah, então meu nome é anormal??
-Nuossa, acho nomes com "W" lindo demais da conta sô.
-Aqui, todos são com "V". Vai querer cpf?
-Não, aliás to desistindo de comprar também.
-Quando eu tiver um filho, vai se chamar Waltair, com "W"... é o nome do meu avô, sabe!
-Pode deixar aqui mesmo então. Próximo!!
-Enquanto eu faço o pacote, toma um cafezinho ali no balcão, cortesia da casa.. Ah, é pra presente?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A pior mãe

O semáforo fechou e eu parei no meio fio
Dei um passo atrás retornando à calçada
Do meu lado, um grupo de meninas
Com não mais de 13 anos;
Tudo novo,
uniforme da escola,
pulseiras, celulares,
cabelos, peles, unhas...

Disputavam entre si
quem tinha a pior mãe:
- Minha mãe inventou de abrir meu armário
pra encontrar roupas que eu nem uso mais...
- Ah, a minha deu de querer limpar meu quarto todo dia!
- Não, e a minha mãe que agora fica entrando no meu quarto
mexendo nos meus brincos e anéis, pior,
fica conversando comigo o tempo todo,
e reclama do MEU celular!!!
- Pois a minha fica ligando e nem tem assunto, tipo, oi?! oi! e então?!

Enquanto eu absorvia todo aquele falatório ligeiro,
o som ia sumindo... e o semáforo estava fechando de novo!!!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

cor

Vida és tão bela
Me faz sentir
Em uma aquarela
Cores sem fim
Tons de gratidão
Por nítido amor
Brilho que realça
A obra do Criador

sábado, 26 de novembro de 2016



Anos 50

Hard bop? Jazz latino?
Um copo meio cheio?
Meio vazio?

Passou! Só sei que passou.
Não sei ao certo como.

Foram-se brincadeiras e descobertas,
Paixões e valentias...
Só sei que passou... e como!

Acumulei alguns amigos
e muitos não-amigos.
Já os inimigos... bem, estes são mais que amigos, querem ser eu.
Passou, enfim, como?!

Meio século, meia vida, ou quase toda,
A magia dela, é a morte,
E a morte é a continuação...

Não cumpri Gênesis 9 nem mudei ou dominei o mundo.

Aqui estou, isso eu sei,
Com um copo meio cheio ou meio vazio,
Mas desta vez com um bom vinho.


Certa vez, um escritor, Luiz Fernando Veríssimo escreveu algo que aprendeu na vida: (adaptado)

“Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com o garçom, não pode ser uma boa pessoa.

As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas delas com você, quase nunca querem que você compartilhe as suas com elas.

Ninguém liga se você não sabe dançar. Levante e dance.

Não confunda sua carreira com sua vida.

A razão pela qual a raça humana ainda não atingiu todo o seu potencial, chama-se “reuniões”.

Lembre-se de que um amador solitário construiu a Arca. Um grande grupo de profissionais, construiu o Titanic.”

Kim e Alison McMillen escreveram um livro que só foi publicado depois pela filha:

“Quando me amei de verdade, deixei de temer meu tempo livre, desisti de fazer grandes planos, e abandonei os projetos megalômanos de futuro. Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo. Hoje sei que isso é saber viver a vida...
Quando me amei de verdade, desisti de querer ter sempre razão e, com isso, errei muito menos vezes. Hoje descobri a humildade.

Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de me preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece. Hoje vivo um dia de cada vez, plenamente.”

domingo, 6 de novembro de 2016

O flanelinha

Andando por uma rua a noite, com carros enfileirados nos dois lados,
procurando em vão um lugar para estacionar o meu
vi alguns flanelinhas gesticulando freneticamente querendo indicar algo... uma vaga.

Mas um me chamou a atenção, pela sua tranqulidade
usava um chapéu estiloso,
terno e gravata ainda que desgastados
o sapato brilhava na luz laranja do poste
e um cachecol xadrez e azul escorria pelo peito
em cima de uma camisa social preta.

É, cada um fazendo o seu melhor...

Minha mulher grudada ao espelho do quebra-sol
ajustando a maquiagem,
como se toda sua beleza não fosse suficiente,
olhei para minha roupa e cheguei à conclusão
que eu não estava à altura de mim mesmo...

Uma buzina veio de trás,
quando me dei conta aquele flanelinha de chapéu
bateu na minha janela,
baixando-a, a pergunta veio direta:

-Vai estacionar ou não, chefia?


wk

sexta-feira, 29 de julho de 2016

olimpíadas de 2016, velhos desafios... no texto.

Talvez eu esteja um pouco mais ácido que o normal esta manhã mas, vá lá:
Estava dando uma passada nas manchetes de alguns jornais,
e me deparei com uma na folha de s. paulo:
"conheça quem são os estrangeiros que podem "roubar" as medalhas dos brasileiros".
Bem, seguindo,
"roubar" não é uma expressão exata e adequada.
Neste país, onde agências de correios estão sendo fechadas
devido a assaltos constantes,
o termo "roubar" pode até ser comum, quase normal,
(mas não é),
muito mais estranho e inadequado o será, quando aplicado a atletas estrangeiros.
Aliás, a maioria das medalhas caberão aos estrangeiros mesmo.
Salvo algumas exceções, que nos dão alegria,
o normal mesmo, será identificar quem são os brasileiros que podem "roubar" as medalhas dos estrangeiros.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

quantos disjuntores voce tem no seu quadro?

Quantos disjuntores voce tem no seu quadro elétrico?
Andando pela cidade de Santo André,
parei na praça do carmo
e entrei em uma igreja no meio da praça
e fui orar a Deus.
Pensei em como começar
e vi que precisava desligar algumas coisas,
como disjuntores precisam ser desligados de um circuito...
comecei a desativar um por um...
Desliguei o celular,
não apenas o aparelho
mas o que está na minha cabeça:
O whatsapp, o facebook, o twitter, o sms, os jogos,
a câmera fotográfica embutida nele...
um a um, foram ficando para trás
enquanto me dirigia igreja adentro...
Sentei-me.
Desliguei o sistema elétrico chamado "trabalho"
que vive dando curto-circuito e choques...
Desliguei então a chave das contas que vira-e-mexe estoura...
Desativei também a chave dos bens materiais,
dos que tenho e dos que gostaria de ter...
Depois desliguei o disjuntor da visão,
porque aquelas imagens nas paredes
e tetos da igreja me levavam a lugares
muito distantes no tempo e no espaço...
Desliguei o disjuntor da família
naquele momento ninguém poderia me preocupar,
além de mim, além de Deus.
Desliguei o disjuntor sonoro
e meu ouvido deixava de ser radar,
e quem passava por mim já não importava...
o ruido da cidade do lado de fora
insistia em incomodar
mas ia se descarregando
como um capacitor desenergizado,
e os sons dos carros, dos ambulantes,
das lojas, da polícia, das pessoas,
das máquinas iam sumindo...
Tirei o relógio do pulso, desligando assim
o disjuntor do tempo...
por fim, já de olhos fechados,
lembrei de respirar...
e então, pude enxergar Deus, que me aguardava
pronto para me ouvir ansiosamente...


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

a folha

Vinha andando pela calçada,
inda agora,
depois da chuva, 
tarde afora,
catei uma folha,

me chamava a atenção
não tive escolha 
sozinha, caída no chão, 
seu corpo oxidava,
vermelho sobre o verde,
era assim..
houve quem me olhasse e estranhasse
Isso eu percebi,
pobre de mim
pobre dela
pobre deles
que não entendem
é só uma folha, é só mais um fim.
wk

Boa tarde.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

pulando a poça - quem nunca?

Ele tinha apenas 4 anos e seguia com seus pais de mãos dadas até a padaria.
Tinha chovido e o melhor era usar aquelas galochinhas,
à prova de qualquer destruição pelas crianças.

Felizmente ele tinha herdado o bom humor do pai
E aquela carinha sorridente mesmo quando estava sério
parecia incomodar a mãe que entrou na padaria
murmurando e com cara de poucos amigos.

"Senta aqui e não reclama, o que você fez foi muito feio",
ela falava rispidamente com o garoto
puxando-o pelo braço e ajeitando-o no banco, para adultos,
com a delicadeza de um hipopótamo.

O pai se dirigiu ao balcão para pedir os lanches
e apenas observava silenciosamente,
enquanto a mãe espumava brabeza
mirando o garotinho que não escondia o sorriso...

"Tá rindo é? vamos ver em casa depois"
-Mãe, eu quero...
-Vai comer o que a gente quiser... não tá merecendo, interrompeu.

Sem contestar, o garoto pegou seu joguinho no bolso
e pôs sobre a mesa.
A mãe olhava soltando raios pelos olhos:
"Eu devia pegar esse joguinho de você."

Enquanto o garoto apoiava o queixo sobre a mão na mesa
alinhando com os dois braços à frente do joguinho,
a mãe começava a enxugar a barra de sua saia
completamente molhada e resmungou:

"Eu devia fazer ele sentar na poça d'água
quando pulou com essas botas me molhando toda!"

Podia-se ler na testa do pai, de pé, apoiado no balcão
vendo e ouvindo tudo em silencio com leve sorriso:
"Esse é meu garoto..."

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

prospectivas

A mídia é especialista em retrospectivas dos anos que se vão.
Mas, e as "prospectivas"?

Eram 5h da manhã, com algumas manchas de azul claro surgindo ao leste no céu escuro ainda.
Estacionei meu carro em frente a um bar, do outro lado da rua,
em um recuo de uma farmácia fechada ainda,
com seu portão de aço de enrolar,
e nele o farol do carro iluminava "proibido estacionar"...
Bem abaixo dos dizeres, um amontoado de papelões
ficou bem próximo ao para-choque do meu veículo.
Desliguei o carro mas com os faróis ainda acesos
pude ver um braço emergindo no meio daqueles papelões
sujo, com a manga rasgada, punho cerrado,
gesticulando para o alto.
Assustei e me dei conta de que havia uma pessoa
por baixo daquele "cobertor feito de celulose"...

Ele estava incomodado com a brutalidade minha
ao estacionar o carro e com a luz dos faróis diretamente
em seu leito, seu pequeno canto onde esperava
ter um pouco de paz para dormir.

Paz esta que interrompi bruscamente...

Apaguei os farois desci do carro, e me dirigi ao bar
atravessando a rua deserta ainda, com algumas pessoas noctívagas,
e outras madrugadoras, como eu, andando depressa...
Alguns cambaleavam e se abraçavam.
Pude ouvir ainda aquele importunado dos papelões resmungando alguma coisa
mas não dava pra entender.

Chegando no bar, no balcão já estava o de sempre:
Café com leite e um pão com manteiga.
Canoa francesa na chapa, como costumavam dizer por lá.

Duas mulheres conversando com forte sotaque nordestino,
me chamaram a atenção atras de mim,
Sentadas a uma mesa de fórmica amarela:
"não vou nunca mais a essa 25 de março."

Até o próximo ano, pensei comigo.

Paguei a conta e voltei ao carro.
Os papelões haviam sumido!
Olhei para os lados mas não vi nada.

E eu nem o convidei para um café!


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

hoje é natal

É noite em Belém
e em certo lugar nasce Alguém.
O mundo não sabe, 
ou, mesmo que saiba, esquece
dAquele que foi prometido, que foi prometido.
 
Pessoas o visitam,
trazendo-lhe presentes: elas sabem
onde está, onde está o menino.
 
O Menino nasceu: nasceu Jesus!
Hoje é natal, hoje é Natal!
Mas, onde está o menino?
 
No sorriso dos lares,
na terra, nos mares ou no céu.
 
É noite de Natal, 
Natal não em Belém, mas onde estou. 
O mundo festeja, mas, onde está o menino?
 
No berço deitado,
no trono ou na cruz... onde está Jesus?
 
Hoje é dia de Natal!
Sem berço e sem presentes,
sem magos e sem menino.
 
Hoje é Natal. Natal no coração
de quem conheceu, de quem conheceu,
não o menino, mas, o Salvador .  
 
Hoje é Natal, hoje é Natal, hoje é Natal!
 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

IPhone

Em uma loja da apple, aguardava ser atendido, para consertar um carregador
e observava alguns produtos na prateleira entre muitos...
pessoas entravam com seus olhos brilhando,
 buscando algo... Celular parecia ter a preferência.

Um casal entrou, ele, de Bermuda Azul, camisa polo branca, meias curtas e tenis multicolorido
falando alto, puxando pela mão quem eu julgava ser sua filha...
Mas, ao chamá-lo de amor, vi que me enganava.
Ela vestia marcas. Sua bolsa LV com alças de corrente dourada, em seu braço que trazia pulseiras douradas usava uma blusinha branca cavada no ombro, tocados pelos seus grandes brincos de argola.
Saia bege, curta, com brilho nas laterais, pernas grossas e sandálias de tiras que amarravam quase até o joelho.
Enquanto ele falava para os quatro cantos da loja que, na sua empresa, ele só usava Apple trazido do exterior e que nunca teve problemas e agora tinha um comprado no país e já culpava todo tipo de politico pela situação da moeda nacional, ela sacava seu cellular que mal cabia na palma de sua mão, de corpo dourado e o colocou sobre o balcão.
O atendente digitava freneticamente algo ouvindo a fala dele: "Esse celular dela não aguentou uma queda!"
O atendente examinou pegando cuidadosamente da mão da dourada cliente que mascava um chiclete olhando para outros modelos na prateleira.
"Meu amor, já é o terceiro cellular que eu compro pra voce e já estamos aqui de novo!!!"
O atendente sorriu: "Moça, não tem uma capa? elas ajudam a proteger o equipamento."
"Capinha eu? num IPhone?" perguntou indignada.
"Um aparelho lindo desse, caro, se eu por capa como as pessoas vão..." Ela interrompeu sua fala olhando pra mim percebendo que observava tudo atentamente, e muito provavelmente com uma cara de reprovação que eu gostaria de não me ver.
Felizmente chegara a minha vez e o técnico me chamou para ver meu carregador.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A igrejinha

Era uma igrejinha à beira da estrada, sem vizinhos por perto.
Mas na hora do culto, apareciam fiéis pelos campos
E logo lotavam a pequena construção caiada pelos próprios irmãos
na última campanha da comunidade.
Entrei e assisti o culto. Pessoal simples mas organizado.

Ao sair, caminhei à beira da estrada
Pegando meu cartão de banco do bolso...
um caminhão passou muito perto
em alta velocidade
causando um deslocamento de ar
que me desequilibrou e soprou o cartão de minha mão
e o vi planar barranco abaixo até cair num córrego
Acompanhei-o com os olhos para não perder a coordenada
do ponto exato onde quedaria o cartão.

Desci rápido, mas ao chegar no rio fétido,
tudo parecia diferente e a coordenada que memorizei
lá em cima não me valia mais.
Meio sem coragem de molhar as mãos
fitava aquela água cinzenta tentando ver
algum sinal do meu dinheiro plástico.

De repente ouvi um barulho atrás de mim.
Uma senhora de cabelos brancos e coquis bem amarrado
uma saia azul antiga e surrada
com uma bíblia na mão, me disse:
- Rapaz, voce procura por algo?
- Sim, meu cartão do banco caiu por aqui. - Respondi
voltando a olhar para o rio.
Ela continuou:
- Voce devia procurar mais por Jesus e não pelo dinheiro.
Respirei fundo e não disse nada.
- O senhor devia ir à igreja, ela continuou.
Ainda olhando o rio, pensei em retrucar a senhora,
mas entendi o interesse em evangelizar.

Relevei, afinal, eu sempre vou à igreja, sou líder e faço diversos trabalhos lá.
Até presidente da congregação já fui.
Mas como explicar a ela tudo isso exatamente ali, na beira daquele córrego
fedido e que eu precisava do cartão para tirar dinheiro e voltar pra casa?!

Eu permanecia agachado pensando nessas coisas
e rastreando com os olhos aquelas águas turvas.
Ela me pos um folheto sobre meu joelho.

Olhei para o papel um pouco enrolado que dizia:
"Vinde a mim"

Alguns segundos depois me virei para a senhora para agradecer
mas não a vi mais.
Perdi a respiração, me virei levantando e olhei barranco acima,
para os lados... e, nada daquela senhora!!!

Apenas o folheto que havia caído ao me levantar
seguia boiando rio abaixo...

terça-feira, 28 de julho de 2015

É nóis mano, É Deus!

Vou transcrever aqui um papo que tive:

- Aí, chefia, tudo certo?
- Maravilha, e aí?
- Seguinte, to com uma proposta e vou passar a bola pra tu:
- Manda!
- To com uns papo aí, da minha mãe, entende? Ela quer que eu vá a igreja, para tipo, pedir perdão...
- E?
- Ela tá certa andei fazendo merda...
- Hmmm...
- Mas voce que é um cara letrado, chegado no que é certo me responde, francamente:
- Pergunte:
- Eu preciso ir a igreja pra pedir perdão?
- Não!
- Foi o que eu pensei... mas, por que então ir a igreja?
- Isso já é outra pergunta?
- (Rsrsrs) Na verdade faz parte da primeira.
- Bom, mano, to feliz por tu, que já sabe o que é certo e errado, porque percebeu que tem que pedir perdão, certo?
- É, o bagulho foi feio...
- Então, eu te digo o que eu penso: Voce deve pedir perdão a Deus
- Pois é, eu sei, mas, tenho mesmo que ir à igreja?
- De novo essa pergunta e eu repito: Nào! Fale com Deus na sua casa, sozinho, ore, reze a Ele, diga o que você fez e peça perdão.
Dando de ombros: - E??
- E tenho certeza de que ele te perdoará, por mais feio que seja o bagulho.
- E será que vou ficar tranquilo?
- Voce tá arrependido?
- Ô, to fora, não dá pra ficar errando assim não.
- Pois é, quando a gente cria uma obra de arte, a gente não deixa de curtir e cuidar dela, e fica muito triste se algo der errado com Ela.
- É, já fiz algumas nas paredes dá um sentimento aqui no peito, mano, muito legal ver aquelas pinturas, me entende?
- Pois então, Deus te criou, você é obra de arte dele, ele não para de te curtir um só instante, e está preocupado com o que anda acontecendo contigo.
- Então, é só isso? Nada de igreja?
- A igreja é outro capítulo que explico outro dia. Por enquanto, trabalhe isso que falamos hoje nas tuas ideias.
- Tá vendo? Falei? Doutor aí, ponta firme. Valeu!
Botei o capuz que nunca tinha usado da minha jaqueta de trabalho por sobre a cabeça:
- Bota fé em mim não, mano, eu não te perdoaria como Deus te perdoa e ama. Fale é com ele.
Saímos em direções opostas, apontando o dedo indicador um para o outro.

terça-feira, 21 de julho de 2015

a janela

Peguei o lotação
sentei ao lado de uma senhora
muito simples, cabelos longos
pele surrada pelo sol
bolsa preta desbotada
nenhum brinco ou colar;

Seu celular tocou
não era smartphone,
um modelo antigo
desbotado tecla apagada...
desloquei o olhar
e foquei lá fora
na janela, lojas passavam
luminosos, propagandas
palavras em inglês,
O lotação cortava um bairro chique


"Alô!" E minhas observações
foram interrompidas pelo celular da senhora:
"Oi meu filho, to bem sim."
Rosto simples de mãe
cansada de trabalhar...
Na janela, alfaitaria, doçaria
Redes de lojas
Descontos "Off"
"Sim, meu filho, já to indo pra casa"
Descontos "Off", repeti...
"não, ainda to no segundo ônibus"
Marcas italianas roubavam meu olhar
À medida que passavam pelo vidro
"Depois no terminal pego o metrô"
restaurantes, bancos, mais luminosos...
"depois pego outro ônibus meu querido.. sim, de novo"
Uma mulher vestido longo
passeava com um maltês
"esquece o tequila depois eu dou comida pra ele"
seria o cachorrinho dela??
"Sim, mamãe também ta levando uma carne pra janta"

Farol fecha!
Um BMW ainda passa no vermelho
causando um susto,

"Olha só, escute... peraí.
vai dando banho no seu irmão..."
mas não naquela senhora...
"Só vou chegar daqui umas duas horas e meia... isso"
No fundo agências de bancos, lojas e pet shops
"Não tem como filho, dê banho no seu irmão"
aquele mundo que passava na janela...
"pegue a roupa da primeira gaveta"
e esse mundo real desta senhora...
"não esquece o lanche dele"

sabe-se lá onde morava...
"Tá, olha to ficando sem crédito"
as ocupações e preocupações...
"qualquer coisa chama a luciene,.. é a vizinha ta bom?"
Manobristas nas calçadas,
abriam portas pras madames
"Tranca a porta e não atende ninguém viu meu filho?"
em salões chiques de cabeleireiros com nomes estrangeiros...
"Espera que a mãe chega logo ta..."
carrões ocupavam as ciclofaixas com suas manobras
"Tchau meu filho, Deus te abençoe e mamãe também te ama... tchau..."

sexta-feira, 8 de maio de 2015

tempo tempo tempo...

O tempo é mesmo relativo.
Meu turno de trabalho, que começa bem cedo e vai até às 14h
naquele dia só me livrou às 15h30...
dia longo pra quem levantou às 4h40.

Saí correndo, peguei o trem bem cheio de ambulantes,
desci na estação das farmácias, caminhei e
comprei alguns remédios que minha mãe me encomendara.

Segui um pouco mais a pé, na mesma calçada,
suja, cheirando a milho verde e pamonha frita na manteiga
e entrei numa relojoaria para deixar um de pulso para conserto.

Passei na banca para ver as manchetes do dia
que até então não parara para me inteirar
sobre o que, a essa altura do campeonato,
já eram velhices...

Atravessei a avenida, e entrei numa padaria
para um rápido café e pães...
Cheguei então ao barbeiro, onde há anos venho
para cortar cabelo mas não a barba;

E entrar neste salão é como enfiar a cabeça numa janela do tempo,
pois tudo está ali desde os anos 60...
Os mesmos potes de vidro de loção bozzano,
a pedra pomes e a tesoura serrilhada...
o rádio que nem ponteiro tem mais,
mas também não precisa porque só se ouve uma rádio.

mas hoje ele estava desligado, notei...
O som vinha de algo inovador.
Da tv, uma velha televisão,
 com um modem de tv a cabo embaixo dela
Na tela, uma sequência de canções do canal de músicas:
"Sentimental demais" era a que estava tocando
E a voz inconfundível de Altemar Dutra;

Quanto tempo não o ouvia...
Sentei-me à cadeira apoiando meus pés numa placa de ferro
de marca "ferrante", e comecei a imaginar
o que havia na época dessa música, anos 60...
"Sentimental eu sou..."

Nasci nos anos 60,
Beatles, homem na lua,
Golpe militar, Kennedy e Jânio Quadros,
o nascimento do chip...

De repente, abri os olhos
sentindo um cutucão nos ombros:
"Veja se ficou bom" me disse o veterano barbeiro...
Mas já?? Haviam se passado 30 minutos,
paguei-lhe o serviço, me agradeceu,
peguei minha sacola, o saco de pães e o guarda-chuva
e saí meio sonolento, parando na calçada
e olhando para os dois lados tentando lembrar
o caminho de volta;

Chegando na esquina, me dei conta
de que não havia trazido nenhum guarda-chuva comigo antes...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

nem tudo termina em boa pizza

Enquanto ele dirigia pra casa, o celular tocou!
- Alô?
- Oi
- Oi amor, sou eu. O que voce sugere pra gente comer hoje a noite? Eu pensei em pizza..
(Que opção restou pra mim??) - Ah, amor voce leu meu pensamento!
- Ah que bom, que sabor voce quer?
- Ah benzinho, não tendo frango nem milho, pra mim ta bom!
- É que eu pensei em algo leve sabe?
- Sim, sempre cuidadosa...
- Então, tem a portuguesa, quatro queijos...
- Pode ser amor, é que eu to dirigindo agora, não dá pra falar muito...
- Tem uma à moda da casa que dizem que é muito bom. A vizinha aqui do lado fava me falando que vale a pena e não é cara...
- Fechado!
- O que?
- Nada, o sinal aqui fechou, mas pode ser essa.
- Qual?
- Essa à moda da casa.
- Mas ela é meio pesada, mas se voce prefere tudo bem.
- Peça metade dela e metade de outra que vc preferir.
- Eu queria mesmo é aquela, como chama, toda verdinha, com tomate?
(E parado num sinal eis que um guarda faz um sinal de reprovação)
- PUTA MERDA!! (multa)
- Seu grosso!!!
- Não, não foi isso... essa que vc pediu ta ótimo.
- Olha, vc ta fazendo pouco caso de mim, não vai reclamar depois, seu ingrato.
(silêncio)
- Amor, tudo bem, é que eu to dirigindo e um agente da cia...
- Ridículo! Agente da cia, kgb, o escambal, sempre tem uma desculpa pra não falar comigo no telefone, tudo bem, eu peço aqui e vc vai ter que comer...
- Ta bom, amor, só não queria.... - Desligou!!!
Morto de fome, depois de um trânsito horrível, abro aquela tampa redonda de papel, pronto para devorar um pedaço de...
FRANGO COM CATUPIRY, MILHO E ERVILHA!!!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

dia-a-dia sem ela

Zé da Banca me confidenciou:
Eu não acredito nessa falta d’água.
E se for, que mal há? tudo é passageiro nessa vida, menos o motorista…
Eu levanto de manhã… bem…
posso limpar meu rosto naqueles lenços molhados de farmácia…
sai lá um pouco de gasto mas….
Escovar os dentes é mais difícil;
mas, a gente toma logo um café e o gosto ruim da boca se vai…
Hm, fazer café? Água mineral sô.
A garrafinha ta mais barata que a xícara de café na esquina...
É trocar de roupa e bora trabalhar….
A cueca dá pra usar de novo mas as meias…
melhor ir sem mesmo….

A mulher em casa é quem reclama
pra tirar a maquiagem,
fazer o feijão, lavar a panela,
a roupa, os panos pra limpar a casa...
Meu carro fica sem lavar mesmo.
Mas outro dia faltou água no radiador e cade torneira molhada pra eu encher???
No caminho de hoje não é que furou o pneu?
Bom, trocado o rumo é da roça
E cá estou eu trabalhando…
vai querer levar?
(E me mostrou um cacho de banana com as mãos inda sujas de graxa e terra)

quando o tempo tomou meu tempo

De fato, ele diz e mostra muitas coisas,
explica e faz entender o inexplicável
O tempo mostra a verdade
e espalha a sabedoria
O tempo me ajudou muito
e muita injustiça se converteu
no regalo proporcionado por ele
Mas o tempo, tomou o meu tempo
Me levou meus dias, horas e minutos
para provar e comprovar o que sempre soube
para aprender aquilo que eu recusava como certo
para aceitar como relativo o que era absoluto…
Agora tudo consome meu tempo
Porque o tempo é linear…. a vida não.
wk